QUEM SOMOS?

Somos a Carina Furlanetto e o João Paulo Mileski, um casal de jornalistas de Bento Gonçalves‑RS que decidiu parar de esperar pelas condições ideais e saiu para explorar o mundo com o que tinha: um Sandero 1.0 (ano 2013, modelo 2014, com pouco mais de 37 mil km rodados). Ficamos na estrada de 18/02/19 a 13/04/20 e rodamos 50.003 mil km. Pretendíamos viajar por dois anos, mas a pandemia antecipou a nossa volta.

ONDE DORMIMOS

Nos primeiros meses usamos muito Couchsurfing (plataforma para buscar anfitriões). Depois, com dificuldade de acesso à internet, o carro se tornou nosso principal hotel: dormimos nele 168 noites (40% do total da viagem). Apenas baixávamos os bancos da frente e colocávamos uma sacola de roupas nos pés (tipo um ônibus leito). Buscávamos onde estacionar no app iOverlander (ferramenta que mapeia pontos de interesse na estrada, alimentada pelos próprio viajantes). Pagamos para dormir apenas em 3 noites, onde não era possível chegar de carro. Teve ainda noites em barcos na região amazônica, barraca, parcerias com estabelecimentos e casa de familiares. Na volta para casa, construímos uma cama dentro do carro: confira aqui.

COMO LAVAR ROUPA?

Roupas íntimas e peças leves lavávamos no banho e itens mais pesados nas casas por onde passamos. Uma vez na Bolívia e outra no Peru pagamos para lavar em lavanderia (achamos o local pelo app iOverlander).
 

OS DOIS DIRIGEM?

Não, apenas o João. A Carina fica com a função de organizar o roteiro e editar fotos enquanto o João está no volante. Ela até fez carteira de motorista no passado, mas nunca buscou a definitiva porque não curtiu o processo e prefere ficar na carona.

E INTERNET LÁ FORA?

Optamos em não ter chip para curtir os momentos off ‑ chegamos a ficar 7 dias sem conexão alguma. Em alguns países é mais difícil encontrar um bom Wi‑Fi, então se você depende de internet ‑ sobretudo para trabalho ‑ talvez seja necessário este investimento. Para o uso no dia a dia da estrada priorizamos apps que funcionavam offline, descarregando previamente (Google Maps, Maps.me e iOverlander).

FICARAM DOENTES?

Fora do país tivemos problemas de saúde comuns e facilmente resolvidos com remédios de farmácia: tosse, febre, dor de garganta, diarréia. Já no Brasil, o João teve uma crise renal e a Carina um princípio de labirintite e procuramos atendimento no SUS.

COMO SURGIU A IDEIA?

Em 2015, ao planejar uma viagem de férias para o Uruguai ‑ com o mesmo Sandero ‑, tivemos a ideia de criar um espaço para dividir nossas experiências em forma de crônicas. A viagem aconteceu, mas o projeto ficou engavetado. Em 2018, depois dos 30 anos, repensamos os rumos da vida e decidimos não mais esperar para tirar do papel o sonho de uma road trip pela América do Sul. Trancamos faculdades (o João cursava Filosofia; a Carina, Psicologia), saímos dos empregos, alugamos nosso apê e adaptamos nosso gato à casa dos pais da Carina.

VOCÊS ACAMPAM?

Levamos uma barraca, mas usamos pouco porque: a) era difícil encontrar campings gratuitos; b) nossa barraca não é boa para o frio (descobrimos depois de quase congelar em Ushuaia).
Barraca de teto até poderia ser uma opção, mas: a) é um item caro; b) necessitamos do espaço extra do bagageiro de teto; c) não poderíamos dormir em qualquer lugar ‑ dentro do carro nos camuflávamos em praças e ruas residenciais.

COMO COZINHAR?

Temos uma bateria extra (110 amperes) e um inversor (12v para 110v com 1.000 watts de potência) que usamos para ligar uma panela de arroz (400 watts, essas de usar na cozinha de casa). A bateria recarrega com o carro ligado ‑ a instalação foi feita numa autoelétrica. Não temos geladeira e compramos itens perecíveis para o dia.

COMO USAR DINHEIRO NO EXTERIOR?

Não temos cartão de crédito e a melhor forma que encontramos para ter grana no exterior foi transferir via app do Western Union (espécie de banco no qual você pode enviar dinheiro para alguém no exterior).

PRECISA PASSAPORTE?

Nós usamos nossos passaportes porque tínhamos (fizemos um ano antes por conta de um mochilão na Europa), mas a maioria dos países da América do Sul aceita nosso RG (a exceção são Guianas e Suriname). Alguns países exigem vacinação contra a febre amarela.

COMO É CONVIVER 24 HORAS POR DIA?

Estamos juntos desde 2010 e já morávamos sob o mesmo teto há alguns anos. Apesar de compartilharmos sonhos e valores, temos diferenças, que foram potencializadas na viagem ‑ antes a rotina fazia com que a convivência não fosse tão intensa. É claro que discutimos inúmeras vezes e tem momentos que um não quer olhar para a cara do outro, mas depois nos entendemos. No fim, é o amor que prevalece. Sobre a intimidade na estrada: quem quer dá um jeito!

QUANTO GASTAMOS?

Estipulamos uma meta de R$ 100/dia ‑ o que poderia nos manter na estrada por dois anos. O aluguel do apê cobriria 1/3 das nossas despesas e o restante viria das economias que fizemos ao longo de uma década (desde que começamos a trabalhar). Como voltamos antes do previsto, os gastos ficaram um pouco acima: R$ 110/dia para nós e o carro. Na volta para casa escrevemos um livro e montamos uma lojinha que nos ajudará a viajar por mais tempo quando nossas reservas acabarem. 

E BANHO?

Muitos postos de gasolina têm ducha (paga ou grátis) e em algumas cidades há banheiros públicos que vendem banho. Já pedimos banho em casa de caridade e nos lavamos com garrafa plástica no meio da estrada. Recorde de dias seguidos sem banho: 4

NÃO É PERIGOSO?

Nunca nos sentimos inseguros. A verdade é que o mundo não é um lugar tão perigoso e hostil como se imagina. Tem muita gente boa! O que não significa que os maus não existam e que você não deva ter cuidado: tivemos um celular e um pneu furtados ‑ no Peru e Equador, respectivamente ‑, além de um suborno na Venezuela.

O CARRO AGUENTOU?

Como não entendemos de mecânica, apostamos em revisões preventivas a cada 10 mil km (preferencialmente em autorizadas). Trocamos peças pontuais que desgastam com o uso: bateria, pneus, correias, amortecedor, suspensão... Nunca ficamos na mão. Por ser 1.0 ele sofreu na altitude, mas, com paciência, chegamos. Também não deixamos de ir a nenhum dos lugares que sonhamos por não ter um carro tracionado.

É MUITA BUROCRACIA?

Se o carro estiver no seu nome, basta apenas ter consigo os seus documentos e do veículo, podendo usar a CNH brasileira (exceção são Guianas e Suriname). Alguns países exigem seguros contra terceiros (Carta Verde para Mercosul, Soapex para Chile e Soat para Peru e Colômbia) que podem ser adquiridos na fronteira. Também podem ser exigidos itens de segurança adicionais: extintor, triângulo extra, kit de primeiros socorros, cambão de ferro, colete reflexivo (compramos um kit em um supermercado na Argentina).

QUAIS OS PLANOS PARA O FUTURO?

Assim que possível, queremos retomar o que faltou no Brasil (21 estados + DF). Iremos sem um roteiro definido, então não temos como saber exatamente quando passaremos por cada estado/cidade. Também sonhamos em ir ao Alasca ou outros continentes, mas ainda não temos recursos para isso ‑ há travessias marítimas caras.

TEMOS PATROCÍNIO?

Toda a viagem foi bancada por nós. Conseguimos algumas parcerias para passeios e hospedagem que nos deram conforto, mas não significaram economia - já que dormiríamos no carro e cortaríamos atrações caras. Após a volta para casa conseguimos parceria para equipamentos (colchões ‑ @sonomais ‑, bagageiro ‑ @fhbrackdelivery ‑, cadeiras e mesas ‑ @portablestyle.brasil), o que de fato representou economia. Além disso, a Renault nos notou e nos presenteou com uma reforma/manutenção mais do que completa no Sandero, que não teríamos como bancar.

E BANHEIRO?

Quando dormimos longe de um banheiro e não era possível usar a natureza, improvisávamos um pote com tampa para o número 1.
 

MUITO PERRENGUE?

Ressignificamos o conceito de perrengue. Descontando as situações dos furtos e um único suborno, de resto tiramos tudo de letra. Dormir tortos no carro, ficar sem banho, passar frio ou calor... tudo era secundário diante da felicidade de estar realizando um sonho.

POR QUE NÃO UMA KOMBI OU UM 4X4?

E por que não um Sandero? A viagem foi feita com o que tínhamos, da forma que podíamos. Qualquer investimento em outro veículo significaria cortar parte do montante disponível para a aventura. O Sandero nunca deu problema e, para nós, as vantagens (é econômico, discreto e não dá muito gasto com manutenção) superaram os contras (falta de espaço e dificuldade de rodar em alguns terrenos).

FALAM OUTRO IDIOMA?

Viajamos basicamente apenas por países que falam espanhol. Tínhamos poucas noções, mas depois de 10 meses tendo contato direto com a língua, aprendemos a nos virar. Dominar o idioma ajuda, mas não é imprescindível, já que existem apps de tradução que podem te ajudar e em geral os estrangeiros sempre foram solícitos conosco.

COMO TIRAM AS FOTOS EM DOIS?

Não curtimos pedir para outras pessoas nos fotografarem porque nem sempre o resultado sai como imaginamos  O segredo para tirar fotos em que os dois apareçam é tripé + timer + paciência. Durante a viagem usamos uma Canon T3i, uma GoPro Hero 6 e celulares (moto G4, moto G7, Samsung A 30s) e editamos no Lightroom pelo celular. Agora estamos também com uma Canon T100 e um Samsumg M31. O que faz uma boa foto é muito mais o olhar de quem fotografa e os retoques da edição do que o equipamento ‑ os nossos não são profissionais, por exemplo.