Melhores dicas para viajar barato


Se você vasculhar na blogosfera vai encontrar uma infinidade de artigos ensinando a viajar sem gastar muito. As dicas vão desde aplicativos para poupar em atrações, passagens, hospedagem e alimentação até as que sugerem valer-se de épocas menos badaladas ou locais em que a nossa moeda vale mais (no caso de viagens internacionais). É claro que todas funcionam de alguma forma se aplicadas à risca, mas a verdade é que nós não utilizamos quase nenhuma delas na nossa viagem de carro pela América do Sul.

Antes de seguir com o post vale um adendo: o que é barato para nós, pode ser caro para você e vice-versa.

Em 421 dias gastamos uma média geral de R$ 110/dia para todas as nossas despesas (um casal e um carro - incluindo combustível, pedágio e manutenção). Há quem faça as contas da soma total e nos julgue ricos, há quem se impressione em como sobrevivemos com tão pouco (se quiser saber mais sobre a viagem, na página FAQ tem um bom resumo sobre ela).

Mas, afinal, como nós fizemos para economizar?


Essa talvez seja a nossa grande dica de ouro para viajar barato e que aplicamos também no nosso mochilão pela Europa: definir um limite diário de gastos e tentar ao máximo manter-se fiel à média ao longo dos dias.


Lembrando que média significa que em alguns dias você gastará muito mais e em outros muito menos - até zero, por exemplo, quando estiver parado e houver sobras da comida do dia anterior. Outro ponto importante é que quanto mais longa for a viagem, mais baixa pode ser a média, já que haverá mais dias para diluir despesas mais altas - dificilmente em uma road trip de férias conseguiríamos manter o mesmo padrão de gastos da expedição pelo nosso subcontinente.

Considere também que para a dica funcionar dependerá muito do empenho em monitorar o orçamento. Nós preferimos anotar religiosamente os gastos dia após dia (há vários apps com esta finalidade - usamos o Mobills) e calcular se estamos acima ou abaixo da média. Outra estratégia pode ser fazer as estimativas por semana e usar apenas dinheiro em espécie. Você separa a quantia para os próximos sete dias e tenta limitar-se a gastar somente este valor durante o período em questão. O conceito é basicamente o mesmo, só muda a forma de controle. Este tipo de estratégia faz com que você se empenhe em buscar alternativas mais em conta para o dinheiro render e, se a finalidade é economizar, acaba sendo mais assertivo do que apenas ir gastando e depois verificar o "estrago".

Sempre costumamos dizer que o que determina se uma viagem será cara ou barata é o próprio viajante e não o lugar. Aliás, locais baratos podem até ser uma armadilha, pois você vai gastando sem muita preocupação e leva um susto ao fazer a soma depois de alguns dias; ao contrário dos mais caros em que você naturalmente se empenha em poupar. Neste contexto, você pode acabar gastar pouco com comida no Chile (onde chegamos a pagar cerca de R$ 20 nos ingredientes para alguns sanduíches simples), por exemplo, e muito na Bolívia (onde por R$ 6 você faz uma refeição completa no restaurante com direito a sobremesa).

Definindo um limite


Para fins de simplificação e para facilitar o entendimento, quando falarmos em mochilão estamos nos referindo à nossa Eurotrip de 30 dias e quando falarmos em expedição será sobre a viagem pela América do Sul.


Uma das missões mais complicadas neste tipo de método é justamente definir o quanto gastar. A verdade é que não há uma fórmula universal para tal porque existe uma infinidade de variáveis a considerar, sobretudo o estilo de cada viajante (quem faz questão de jantar em um restaurante estrelado gastará mais do que quem passa tranquilo com um sanduíche por refeição).


O primeiro passo é saber o quanto você dispõe para gastar. Foi com base nisso que chutamos uma média de R$ 100/dia para nossa expedição - porque o total em dois anos equivaleria ao que nossas reservas alcançariam. Se gastássemos o dobro, o calendário da viagem teria que ser cortado ao meio.

É claro que não foi um chute totalmente no escuro. Já acompanhávamos alguns casais de viajantes e sabíamos, com base no que eles divulgavam, que em alguns meses os gastos ficavam dentro desta média. Considerando que a maioria tinha veículos menos econômicos que o nosso, decidimos arriscar.

Para o mochilão, tiramos do cálculo diário o gasto com passagem e hospedagem - por ser uma viagem de férias, a lógica usada não foi a mesma do que na expedição. Tentamos economizar ao máximo nestes itens pesquisando promoções e alternativas mais em conta (neste post contamos mais sobre nosso planejamento). Depois de saber quanto gastaríamos para tal e levando em conta o total que pretendíamos gastar com a viagem, estipulamos nossa média diária. Para isso pesquisamos custos de transporte público nas cidades do roteiro, valor das atrações que queríamos visitar e preços de alimentos nos supermercados. Chegamos à conclusão de que poderíamos nos virar com 35 euros/dia o casal.


Para quem quer simplificar a busca, uma dica é valer-se das informações de sites como www.custodevida.com.br e quantocustaviajar.com. Eles ajudam a ter uma noção do preço de alguns itens em cada cidade, mas nem todas estão detalhadas ali e, em alguns casos, é possível gastar ainda menos do que as modalidades mais econômicas listadas (como comentaremos na sequência). Mas, de qualquer forma, vale como ponto de referência.


(Para a expedição na América do Sul não nos aprofundamos desta forma porque nem roteiro completo tínhamos - além do que, demandaria muita pesquisa por envolver um número maior de destinos, já que a viagem duraria dois anos).


A seguir os principais gastos envolvidos em uma viagem e como tentamos barateá-los.

Transporte


A não ser que você viaje de carona, a pé ou de bicicleta, quase todas as demais modalidades de viagem incluem um gasto mais substancial com transporte - seja combustível ou passagens aéreas/terrestres. Ele até pode ser barateado (buscando promoções ou horários/trechos mais em conta, por exemplo, como fizemos no mochilão), mas ainda assim representará uma boa fatia do orçamento.


Não utilizamos nenhuma tática especial para poupar neste item durante a expedição. Mas há quem utilize aplicativos de redes de postos de combustível (no caso do Brasil) para ter desconto ao abastecer ou acumular vantagens e também quem procure fugir de rodovias pedagiadas (informe-se previamente porque nem sempre as condições de conservação da rodovia compensam a troca).

Quem vive por períodos mais longos na estrada, em muitos casos opta em viajar de modo lento. A tática é válida sobretudo para quem gera renda enquanto viaja (trabalho remoto, vende algo na estrada ou presta serviços por onde passa), adaptando os gastos ao valor que entra na conta. No nosso caso, como já tínhamos o dinheiro de antemão, ficar parado por longos períodos não significaria necessariamente economia, apenas menos locais conhecidos dentro de um intervalo de tempo. Mas, mesmo assim, não rodávamos todos os dias e chegamos a ficar até 18 dias em uma mesma cidade - boa oportunidade para descansar do ritmo frenético e tentar gastar o mínimo possível para controlar a média. Também tentávamos programar um roteiro com paradas em cidades próximas, evitando assim longos deslocamentos e abastecendo com menos frequência - poucas foram as vezes em que rodamos mais do que 500 km por dia.


O combustível representou 29,7% do total das nossas despesas. Se quiser estimar o gasto previamente, ter um roteiro definido ajuda a saber a quilometragem estipulada. Levando em conta o consumo do veículo e preço do combustível (no site pt.globalpetrolprices.com é possível conferir valores atualizados por país) é possível calcular uma prévia - para não ter surpresas desagradáveis, baixamos a média de consumo e colocamos o preço do combustível um pouco acima - aplicando uma regra de três. Exemplo: se seu carro faz em média 14,6 km/l, para percorrer 1.000 km serão necessários 68,5 litros de combustível (1000 ÷ 14,6); se cada litro custa em média R$ 5, o custo será então de R$ 342,50 (68,5 x 5).


Se matemática não for o seu forte, há sites/apps que fazem esse trabalho para você - como mapeia.com e wikirota - e que, de quebra, ainda estimam o gasto com pedágio (levando em conta deslocamentos no Brasil). Usamos apenas uma vez este tipo de ferramenta, no nosso retorno para casa, e os valores foram bastante aproximados, apesar de não exatos - a diferença ocorreu porque encontramos gasolina mais barata, o carro rendeu mais por rodarmos apenas em rodovias e não seguimos detalhadamente a rota sugerida, fazendo com que não passássemos exatamente pelas mesmas praças de pedágio elencadas.

A viagem de carro tem ainda outros custos embutidos, como manutenção e seguros obrigatórios contra terceiros em alguns países - no caso da América do Sul: Carta Verde para Uruguai, Argentina e Chile; Soat para Peru e Colômbia; Soapex para o Chile. Também tivemos outros gastos na categoria transporte como passagens de ônibus, metrô e táxi/Uber em grandes cidades (o transito caótico e os custos altos de estacionamento em áreas centrais compensavam deixar o carro parado) e deslocamentos de balsa/barco no Norte do Brasil (não havia estrada ou esta era a melhor opção para fugir das más condições das vias em época de chuva). Estes itens somaram 24,08% dos nossos gastos na expedição - sim, o carro demandou mais despesas do que nós.


Alimentação


Engana-se quem pensa que todo mochileiro vive à base de macarrão instantâneo. Até mesmo porque, se você fizer as contas, chegará à conclusão de que ele é, em geral, mais caro do que comprar um pacote de espaguete e alguns tomates para um molho rápido. Essa sim foi uma refeição que repetimos (variando molhos como alho e óleo e yakissoba de legumes), assim como arroz com ovo. Do total, 23,55% do orçamento foi gasto com comida, uma média de R$ 13/pessoa por dia.

Um fato curioso: os únicos dois "miojos" que comemos na expedição, ganhamos de presente em uma casa que nos acolheu.


Não estamos dizendo que você deve comer todos os dias o mesmo prato e nem que deve abrir mão de provar a gastronomia local, mas se quiser viajar gastando pouco é preciso definir prioridades, saber fazer escolhas e ter equilíbrio.


Tenha em mente que este é o custo variável que pode arruinar qualquer orçamento.


Nunca deixamos de provar algo típico, mas não o fazíamos em todas as refeições e sempre procurávamos alternativas em conta. No mochilão, por exemplo, queríamos provar os tradicionais waffles em Bruxelas. Enquanto caminhávamos sem rumo pelas ruas, fomos pesquisando os preços até que encontramos uma banquinha que vendia o mais simples a 1 euro cada - nas outras estava o dobro. Em Verona, fugindo das ruas principais também conseguimos um prato de macarrão pela metade do preço. Para alguns essa busca pode ser perda de tempo; nós sempre encaramos como parte da aventura e para nós era importante poupar sempre que possível. Sabe a expressão "cobertor curto"? Ela sempre foi uma realidade nas nossas viagens. Esses dois euros poupados no caso da Bélgica podem parecer insignificantes, mas na soma diária representaram uma folga para investir em outra experiência - a economia no início do mochilão permitiu nos esbaldarmos em pizzas e gelatos em Roma no fim da viagem.


Tenha em mente que seja qual for o seu destino, quase sempre haverá diferentes "categorias" de opções de alimentação. Vamos usar como base a realidade da nossa cidade (moramos na Serra Gaúcha) para exemplificar:


Preparando a própria comida: comprando os ingredientes no supermercado é possível preparar um macarrão para dois por menos de R$ 5 ou, se não tiver onde cozinhar, por preço semelhante também conseguirá improvisar um sanduíche simples (pão com sardinha, por exemplo).


Restaurante popular: pesquisando bastante e indo a lancherias menos badaladas, é possível encontrar um prato feito (arroz, feijão, batata frita, salada, uma carne) por cerca de R$ 15. Se você não lotar o prato é possível até mesmo gastar menos que isso num buffet a quilo.


Restaurante turístico ou de alta gastronomia: um cardápio em restaurante voltado ao turista, com culinária típica da imigração italiana (sopa de capeletti, polenta, massas, galeto) sai por volta de R$ 50 (tem bem mais caros que isso e eventualmente é possível gastar menos com algum voucher de sites de ofertas ou clube de descontos). Também há estabelecimentos de alta gastronomia (especialmente de culinária internacional) que podem passar facilmente de R$ 100/pessoa - sem considerar as bebidas.


Descontos ocasionais: não costumamos pedir comida em casa, mas temos apps de delivery instalados e esses dias um deles estava com cupons de desconto e conseguimos um prato feito bastante generoso (com bife de frango) que serviu bem duas pessoas por míseros R$ 2 (o empreendimento não cobrava taxa de entrega porque era no mesmo bairro). Claro que um valor tão baixo assim é exceção, mas ilustra como é possível eventualmente conseguir comer bem a um custo mais em conta.


Passeios


Assim como alimentação, eis outro item que pode comprometer o orçamento a depender do seu estilo de viajar.


Voltamos a citar o exemplo da Serra Gaúcha. Há uma oferta turística crescente nos últimos anos, especialmente dentro do chamado turismo de experiência - como pisa da uva e lida no campo, piqueniques, voo de balão ou até elaborar o próprio espumante. São vivências muito interessantes, mas que nem sempre encaixam no orçamento. Por outro lado, pegar o carro ou uma bicicleta para percorrer as estradinhas do interior quase não tem custo algum (só o combustível ou eventual aluguel da bike) e lhe brindará com lindos cenários bordados de parreirais que mudam conforme a época do ano. Para algumas pessoas - como nós - isso já vale a viagem; outras podem sentir que assim não exploraram de fato o local e sintam necessidade de ter as experiências pagas citadas anteriormente.


No mochilão priorizamos atrações grátis e selecionamos a dedo entradas pagas que valiam a pena (nos nossos parâmetros, claro), como o Coliseu, em Roma. Para nós, absorver a atmosfera de uma cidade, passeando pelas ruas e observando os moradores locais já é o suficiente. Costumamos complementar o "mergulho" nestas diferentes realidades pesquisando previamente curiosidades históricas sobre a região na internet.


Na expedição fizemos o mesmo, mas não deixamos de conhecer o que queríamos por ser ligeiramente mais caro - 8,26% do orçamento foi gasto nesta categoria. O fato de estar de carro ajudou a poupar com transfer, mas ainda assim os gastos somam-se. O total dependerá do destino e do que você optar em priorizar. Para exemplificar: em uma semana em San Pedro de Atacama, fazendo os passeios por conta, considerando apenas os valores das entradas de atrações, gastamos o mesmo do que apenas o ticket para acessar as ruínas de Machu Picchu (fomos da forma mais econômica, mas a entrada é um valor que não tem como fugir). Por isso é importante definir o que você não abre mão e o que pode pular sem muito peso na consciência. Para poupar é necessário sacrifícios, mas isso não significa uma viagem desinteressante e nem deixar de fazer o que lhe atrai.


Priorizar atrações grátis não é o mesmo que apenas bater perna pela cidade. Há trilhas para fazer por conta (o app Wikiloc pode ajudar a buscar algumas), museus gratuitos - ou em que a entrada não é cobrada em determinados dias da semana - e também empreendimentos com visitação gratuita (como algumas vinícolas, olivícolas ou fábricas de chocolate).


Hospedagem


Dependendo o tipo de viagem, a hospedagem também pode comprometer uma boa fatia do orçamento.


Uma grande vantagem para baixar os custos da nossa expedição foi tentar não pagar para dormir. Esse gasto representou 0,35% do total e correspondeu a três das 421 noites, onde o carro não chegava (uma delas foi em Machu Picchu e outras duas em Iquitos, na selva peruana). No restante, misturamos estadia em casas de pessoas (familiares, Couchsurfing, seguidores do projeto), campings gratuitos (em locais com ou sem estrutura), barcos na região Amazônia (usando a lógica do pernoite no transporte) e parcerias com estabelecimentos para hospedagem. Porém, onde mais dormimos foi mesmo nos bancos do carro, sem qualquer adaptação. Reclinávamos os assentos da frente, colocávamos um apoio nos pés e dormíamos estacionados em algum lugar (ruas residenciais, praças, postos de combustível ou entrada de atrações, quase sempre encontrados via iOverlander). Era super confortável? Não, mas era grátis.


Significa que você deve dormir mal para poupar? Não! Esta foi apenas a forma que encontramos e que funcionou para nós, mas há outras opções. Além do já mencionado Couchsurfing (app/plataforma em que você busca pouso na casa dos locais), é possível trocar trabalho por hospedagem (o que inclui também experiências de voluntariado). Se você não viaja com veículo próprio, pode priorizar deslocamentos noturnos para poupar uma estadia. Fizemos isso no mochilão, mas ironicamente dormíamos melhor no carro do que nos ônibus na Europa - ao menos nos que pegamos os bancos não reclinavam tanto.

Demais custos

Os gastos dos tópicos acima somaram 85% dos custos da expedição. O restante inclui roupas (de frio ou calor, que sentimos necessidade de adquirir na estrada), equipamentos variados (incluindo a reposição de um celular furtado), banhos pagos, lavagem de roupa e itens de farmácia. Por conta da falta de espaço, tanto na expedição como no mochilão o foco não era fazer compras e, portanto, lembrancinhas não entraram nas estatísticas. Se você não abre mão de souvenirs , lembre-se de reservar orçamento para isso.


Conclusão


Não há respostas conclusivas sobre este assunto, mas na prática descobrimos que é possível viajar para lugares incríveis sem endividar-se. Tudo é uma questão de alinhar expectativas e elencar prioridades.