Monte Roraima: um guia completo para se preparar para o trekking

Atualizado: Fev 4


Homem com bandeira do Brasil no alto do Monte Roraima
Um dos mirantes no alto do Monte Roraima

Uma das experiências mais marcantes da nossa viagem pela América do Sul foi subir ao topo do Monte Roraima - passamos a virada do ano 2019/2020 lá em cima e foi inesquecível (primeira vez na vida que não aguentamos esperar a meia-noite para ver a entrada de um novo ano - de tão cansados que estávamos).


Trata-se da maior montanha plana do mundo. É tecnicamente um tepui - monte em formato de meseta - e seu ponto mais alto está a 2.810 metros sobre o nível do mar. Para chegar ao topo são necessários três dias de caminhada e, ao contrário do que muita gente pensa, não é preciso ser um super atleta para conseguir este feito - embora um pouco de condicionamento físico seja necessário. Se você sempre sonhou com uma aventura assim, neste post contamos como é o trekking e o que é interessante saber antes de ir.


Onde fica o Monte Roraima e como ir até lá?

Embora esteja na fronteira entre Guiana, Venezuela e Brasil (estado de Roraima), a via de acesso ao topo por caminhada fica do lado venezuelano (no Parque Nacional Canaima - Patrimônio da Humanidade), que também é onde está a maior parte do monte (85%). A caminhada inicia na comunidade de Paratepuy. Dependendo de onde você mora, a logística para chegar até Roraima pode ser complicada, devido à localização do estado e à pouca oferta de voos. Muitos viajantes optam em combinar a viagem com uma ida a Manaus.


carimbos no passaporte de entrada/saída na Venezuela e conclusão do trekking do Monte Roraima
carimbos no passaporte

Para realizar o caminhada é necessário a contratação de guia. Até é possível fazer esta contratação por conta, mas o mais cômodo é contratar um pacote com agência para não precisar preocupar-se tanto com a logística. Em Boa Vista, capital de Roraima, há diversas empresas que oferecem o passeio e se encarregam da logística de levar os aventureiros até Pacaraima (a cerca de 200 km de distância), onde é necessário realizar os trâmites para cruzar a fronteira. Nós fomos em parceria com a Monte Roraima Travel. Para cruzar a fronteira não é necessário passaporte, podendo usar apenas RG. Mas se tiver passaporte, pode levar para "colecionar" um carimbo da Venezuela e outro do Monte Roraima após concluir o trekking (a agência dispõe de um personalizado). Os guias são todos venezuelanos, das comunidades locais, e se comunicam bem em português. Cada agência trabalha com seu próprio calendário e em algumas épocas do ano (Réveillon e Carnaval) a procura é maior. O tour padrão geralmente dura sete dias e o número de atrações visitadas no topo depende das condições climáticas e do ritmo de cada grupo.


Como é o trekking de sete dias?


Mulher sentada em veículo escrito Venezuela
Com o 4x4 que leva até o início da caminhada

O roteiro feito pelas agências é bastante parecido, mas há algumas diferenças - algumas agências usam o primeiro dia para enturmar o grupo e pernoitam em Santa Elena de Uairén (primeira cidade venezuelana depois da fronteira), iniciando a caminhada no segundo dia. Na nossa experiência, fizemos o primeiro trecho de caminhada já no primeiro dia e curtimos bastante.


Dia 1: saímos de Boa Vista em um sábado pela manhã, por volta das 5h. Há uma parada para café da manhã (por adesão - única refeição que não faz parte do pacote) na metade do caminho. Por volta das 8h realiza-se o trâmite na imigração e se embarca em caminhonetes 4x4 que te levam à comunidade onde iniciará a caminhada. O trajeto é bastante esburacado e é feito, em alguns trechos, com bastante emoção. Depois do almoço inicia-se a caminhada até o acampamento do Rio Tek - 12 km, cerca de 5 horas - onde é servida a janta e armado o acampamento. Dependendo do seu ritmo você chegará antes de escurecer. A caminhada tem poucas subidas.


Homem sentado em frente a barraca de camping no trekking para o Monte Roraima
Café da manhã no acampamento do Rio Tek

Dia 2: após o café da manhã inicia-se o segundo dia de caminhada. Um total de 9 km até a base do Monte Roraima, onde são servidos almoço e janta e preparado o camping. O terreno é um pouco mais inclinado do que no primeiro dia.


Dia 3: dia de chegar ao topo do monte. A caminhada inicia após o café da manhã e, apesar de ser apenas 5 km de percurso, é o trecho mais puxado por conta da subida e das pedras soltas. Chega-se lá depois do meio-dia e o almoço é servido já no acampamento, onde serão passadas as próximas três noites. Tratam-se de abrigos e cavernas chamados de "hotéis" - cada um tem um nome e é feito um sorteio entre as agências para determinar onde cada grupo passará a noite.


mulher em uma das piscinas naturais (jacuzzis) no alto do Monte Roraima
Jacuzzis no topo do Monte Roraima

Dias 4 e 5: são dois dias inteiros de atividade no topo do monte. A divisão dos atrativos a serem conhecidos em cada dia depende das condições climáticas e da disposição do grupo. Dependendo do local do acampamento será preciso caminhar mais para chegar a alguns deles. Entre os pontos de interesse estão as jacuzzis (poços para banhar-se), o vale dos cristais, a pedra Maverick (parece o carro antigo), diversos mirantes e o Ponto Triplo (atrativo mais distante de todos, onde há um monumento que marca a tríplice fronteira). No nosso primeiro dia não demos sorte com a visibilidade. No segundo dia o grupo ficou dividido: parte foi ao Ponto Triplo e parte quis tentar a sorte nos mirantes, já que o tempo estava mais aberto (esta foi a nossa opção para nos poupar para o dia seguinte).


Homem sentado contemplando o amanhecer no topo do Monte Roraima
Amanhecer no topo do Monte Roraima

Dia 6: após o café da manhã inicia-se a descida do topo. O percurso deste dia condensa o trajeto dos dias 2 e 3 - cerca de 14 km - dormindo-se novamente no acampamento do Rio Tek. A pausa para o almoço acontece no mesmo ponto onde acampamos no segundo dia e a janta já no local onde passaremos a noite. É um dos dias mais cansativos e as pedras soltas exigem bastante dos joelhos na descida. Para nossa surpresa, neste dia havia alguns locais vendendo lanches, cerveja e refrigerante gelado na nossa chegada. Parecia quase uma miragem. É claro que aproveitamos.


Dia 7: após o café da manhã, inicia-se o trecho final de caminhada (o mesmo do primeiro dia). Na chegada, embarca-se novamente nas caminhonetes 4x4 até a comunidade de San Francisco de Yuruani, onde é servido o almoço. No local há algumas tendas para a venda de artesanato local. Após, segue-se viagem de volta a Boa Vista.


Como preparar-se para subir o Monte Roraima?


Não é necessário ter experiência com nada semelhante. Nosso grupo mesclava experientes com quem nunca havia feito trekkings e sequer acampado. O ritmo de cada um é respeitado. Para os mais sedentários, recomendamos uma pequena preparação prévia, nem que seja com pequenas caminhadas pelas ruas da cidade ou trocando o elevador pelas escadas alguns meses ou semanas antes da aventura. Nós estávamos há meses sem fazer qualquer atividade física mais intensa - apenas caminhadas pelas cidades que estávamos passando. Sentimos algumas dores nas pernas e fizemos bolhas nos pés, mas nada que impedisse a conclusão do desafio.


O que levar para o trekking?


Venezuelanos encarregados da logística para subir ao Monte Roraima
Carregadores venezuelanos

Nada fica no monte e tudo deve ser transportado - itens de cozinha, barracas, fogareiro, botijão de gás, banheiro químico e alimentação. Estes detalhes ficam por conta da agência. Cada aventureiro se encarrega de levar apenas itens pessoais (conforme detalharemos na sequência). Não são usados animais no transporte, apenas carregadores das comunidades indígenas venezuelanas. Cada um chega a levar até 45 kg nas costas. As bagagens são acomodadas em cestas - com alças para serem colocadas como se fossem mochilas - onde também são acomodadas barracas e demais apetrechos.



Roupas: se tiver roupas específicas para a prática esportiva, melhor, mas qualquer roupa confortável serve. Para as mulheres, uma legging, e, para os homens, uma calça leve, já são suficientes. Se tiver camisetas dryfit ou com proteção UV, melhor, mas em muitos dias usamos camisetas comuns e caprichamos no protetor solar. Manga longa ajuda a evitar picadas de puri puri (mosquitos). Não achamos necessário uma peça de roupa para cada dia, já que é possível lavar nos rios pelo caminho. Entretanto, é preciso contar com sol para secar - no alto do monte o clima costuma ser mais úmido e pode demorar. Uma dica é pendurar as roupas molhadas do lado de fora da mochila durante a caminhada. Por conta disso, também é recomendado usar toalhas de microfibra (secagem rápida) ou uma toalha de rosto (ocupa mais espaço que a de microfibra, mas parece enxugar melhor).


Neblina no alto do Monte Roraima
Neblina no dia em que chegamos ao topo

O clima muda rapidamente lá no topo e costuma chover e fazer frio em todas as épocas do ano. O grupo anterior ao nosso pegou chuva todos os dias; nós, apenas uma garoa no primeiro dia e um nevoeiro muito forte no quarto. Portanto, capa de chuva - ou poncho, que pode ser rapidamente vestido sobre a mochila - é indispensável. Também não subestime o frio (como nós fizemos) e vá preparado para baixas temperaturas à noite (às vezes próximo a zero grau). Além de um bom casaco quente, leve e impermeável, roupas térmicas (camiseta e calça), touca e luvas podem ajudar a espantar o frio.


Calçados: nos pés, usamos botas à prova d'água, mas muitos foram com tênis de caminhada/corrida. Há quem prefira papetes (geralmente de marcas esportivas) ou crocs (a maioria dos carregadores usa e também levamos os nossos ) para trechos planos. Chinelo é útil para usar nos banhos de rio e à noite - crocs também servem.

Mulher com mochila nas costas olhando para o Monte Roraima
Olhando o desafio que nos esperava

Itens de camping: há poucas lojas especializadas em equipamentos de camping em Boa Vista, portanto, é melhor já levar de casa o que for usar durante o trekking. A agência oferece a barraca (individual ou casal/dupla, carregada e montada/desmontada nos acampamentos pela equipe de apoio) e cada um deve levar o próprio saco de dormir e colchonete e/ou isolante térmico. Levamos colchonetes autoinfláveis que tinham também travesseiro embutido. Quem nos acompanha há mais tempo sabe que damos azar com itens infláveis e dessa vez não foi diferente. Apesar de terem furado (erro nosso de transportá-los fora da mochila e sem proteção, raspando assim nas pedras), por terem um "recheio" mais fofo, ofereceram um pouco de conforto mesmo murchos. De última hora, foi o único que encontramos para comprar, mas vimos muitos companheiros de grupo com modelos leves e compactos, para serem inflados com a boca e que cabem numa bolsinha.


Mochila: uma boa mochila cargueira faz diferença, a não ser que você opte em contratar carregadores (em dezembro de 2019 custava R$ 70/dia para até 15 kg). Usamos mochilas bem comuns e baratinhas. Cada uma estava com 9 kg e conseguimos carregá-las sozinhos em todos os dias. Outra dica é levar também uma mochila de ataque vazia na bagagem para usar nos dias de caminhada no topo do monte - não levamos e usamos a cargueira praticamente vazia, deixando os demais itens na barraca.


Saúde e higiene: os banhos são de rio, então não esqueça de levar roupas de banho (nem sempre haverá privacidade para este momento). A recomendação é dar preferência para shampoo e sabonete biodegradáveis. Para as necessidades, usa-se o mato (número um) ou uma espécie de "banheiro químico' onde os dejetos são feitos em uma sacola com cal. Embora não tenha sido cobrado formalmente quando fomos, é recomendada a vacinação contra febre amarela feita com pelo menos 10 dias de antecedência. Levamos apenas remédios para dor de cabeça e diarreia, mas não usamos. Não somos o tipo de pessoa que costuma ter uma "farmacinha" sempre junto, então não somos muito indicados para dar qualquer dica sobre isso. Vimos muitos companheiros de grupo com remédios para enjôo e dores musculares e esparadrapo e ataduras. O bom de ir em grupo é que se você esquecer algo sempre haverá alguém para lhe socorrer. Apesar de algumas dores e bolhas nos pés, não usamos nada para tal.


Alimentação e hidratação: são servidas três refeições diárias e eventualmente alguns lanches - com opções para vegetarianos. Teve quem não comia tudo por achar a porção generosa; teve quem sentiu falta de algo extra. Levamos chocolates e barras de cereal, mas sentimos falta de algo salgado no intervalo entre as refeições. Há muitos rios e fontes de água durante todo o trajeto e que são potáveis. A água costuma ter mais minerais do que estamos acostumados, o que, para algumas pessoas, pode dar enjôo. Tomamos ela ao natural e não sentimos qualquer desconforto, mas há quem prefira usar pastilhas para purificá-la (vende-se em lojas de camping/pesca).


Itens extas: protetor solar e repelente são indispensáveis. Protetor labial é recomendado - sentimos os lábios bastante ressecados. Boné/chapéu e óculos de sol também são interessantes por conta da forte radiação no topo. Como não há luz elétrica, lanternas de cabeça são úteis à noite. Algumas pessoas relataram que sentiram mais confiança e firmeza na caminhada usando bastão de trekking. Leve sacos extras para recolher seu lixo e também para proteger os itens dentro da mochila em caso de chuva.


Fotografia: Usamos nossos celulares, uma GoPro e uma Canon T3i com uma única lente, a 18-135mm. Levamos também um power bank para recarregar os celulares (usamos sempre no modo avião para poupar a bateria e foi preciso uma carga extra). Como usamos a Canon e a Gopro apenas para fotos e não para filmagens, a bateria durou durante todo o percurso. É proibido uso de drones.


Já ouvi que tem muito perrengue, é verdade?


Algumas pessoas que fizeram o trekking relatam terem sofrido bastante: improvisar um lugar para as necessidades fisiológicas, banho gelado, passar frio à noite, sentir dores por conta do exercício físico, não ter um horário padrão para refeições (depende do momento da chegada do trekking do dia), comer algo que não faz parte da rotina alimentar (o prato que mais nos serviram foi "arepa", uma massa frita feita com farinha de milho e que pode ter recheios diversificados, como queijo, carne e ovo - é bastante popular na Venezuela), ficar sem internet e nem sinal de celular por uma semana e dormir em barraca longe do conforto de um colchão macio. De fato, para quem não está acostumado a este tipo de aventura, a descrição anterior pode soar assustadora. Para nós, depois de 10 meses viajando de carro e enfrentando muitas situações adversas, foi tranquilo.


Embora não tenha sinal de telefone, as agências usam comunicação via satélite para o caso de haver alguma emergência. O nosso trajeto também estava sendo monitorado e compartilhado em tempo real nas redes sociais da agência - uma forma de deixar a família mais tranquila.


É muito caro?


O passeio em si não é muito barato (em dezembro de 2019 custava em torno de R$ 2 mil com as agências brasileiras) porque é necessário acompanhamento de guias e auxiliares (no nosso grupo havia sempre pelo menos um na frente, um no meio e um atrás, todos venezuelanos) e a logística envolvida é complexa por ter que carregar todos os equipamentos. Mas pensando que são sete dias de caminhada e com refeições inclusas, também não é nenhum absurdo. Porém, há os custos extras para se chegar até Boa Vista e, para quem não está acostumado a fazer este tipo de atividade, pode ser necessário gastar um pouco mais para adquirir itens para o percurso.


Vale a pena fazer o trekking para subir o Monte Roraima?


Não é uma caminhada fácil (especialmente pelo número de dias), mas foi menos difícil do que esperávamos. Concluir uma empreitada destas é muito mais uma questão de preparo psicológico do que físico. Apesar de não ser uma experiência tão barata e de forçadamente sair da sua zona de conforto, consideramos que é muito válida e enriquecedora a experiência. A energia no topo do tepui é incrível.


Curiosidades:

- a pronúncia correta é "Roráima" e não "Rorâima";

- o Monte Roraima serviu de inspiração para o livro "O Mundo Perdido", de Sir Arthur Conan Doyle (