Quanto custa ir de carro até Ushuaia?


Letreiro de Ushuaia pelo retrovisor do carro
Sonho de muitos aventureiros: chegar de carro no "Fim do Mundo"

Chegar até o chamado "Fim do Mundo" é sonho de muitos amantes de viagens. Para boa parte dos mais aventureiros, a graça está em ir por conta própria, em uma road trip, apreciando cada pedacinho do caminho e se deslumbrando com as paisagens da Patagônia. Mas será que este é um sonho que cabe no bolso? Quanto, afinal, custa ir até Ushuaia de carro?


Infelizmente não temos como determinar o valor exato. Não existe uma formula mágica que possa ser aplicada em todos os contextos, porque a resposta é um eterno "depende". Mas podemos compartilhar nossa experiência e lhe ajudar a estimar seus custos analisando o estilo e levando em conta as particularidades da viagem (tempo, orçamento, atrativos, veículo). Convém antecipar, desde já, que dirigir até a ponta de baixo do continente é bem mais possível e acessível do que muita gente pensa.


Onde fica Ushuaia: por estar ao sul do continente, esta região é conhecida como "Fim do Mundo". Na extremidade sul da Cordilheira dos Andes, banhada pelo Canal de Beagle, Ushuaia fica a cerca de 3.000 km de Buenos Aires, capital argentina. Está localizada na província de Terra do Fogo, um arquipélago separado do continente pelo Estreito de Magalhães - o nome se deve ao fogo avistado pelos exploradores durante o descobrimento. É um dos destinos queridinhos da chamada Patagônia Austral.


Uma curiosidade: em maio de 2019 as autoridades chilenas promoveram Puerto Williams (10 km ao sul de Ushuaia) à categoria de cidade – antes era vilarejo – o que tirou o posto de Ushuaia como a mais austral do planeta (austral é um adjetivo para algo que fica ao Sul, ao contrário de boreal, relativo ao Norte).

De qualquer forma, Ushuaia segue povoando o imaginário de muitos aventureiros até mesmo por ter um acesso mais fácil. Ela está na chamada "Isla Grande", com travessias regulares de balsas para cruzar o Estreito de Magalhães. Já Puerto Willians está ainda mais ao sul, na "Isla Navarino", entre o canal de Beagle a o Cabo de Hornos. É possível ir de Ushuaia até lá por via marítima, em excursões sem o carro. Se quiser ir com o seu veículo a opção é embarcá-lo em um ferry boat em Punta Arenas (cidade chilena a 600 km de Ushuaia), em uma navegação que dura cerca de 30 horas. Pelos custos e logística envolvida, poucos são os viajantes que encaram essa aventura.

Canal de Beagle, Ushuaia
Ushuaia é banhada pelo Canal de Beagle

Mas afinal, quanto custa para chegar até Ushuaia?


Os valores detalhados a seguir referem-se ao trecho que corresponde à ida e nossa estadia na cidade. Não temos como estimar qual foi o nosso gasto com a volta porque do Fim do Mundo seguimos pela América do Sul - e foram mais 40 mil km até estar em casa outra vez. Mas, para fins estatísticos, você gastará pelo menos o dobro em itens como gasolina e pedágio.


Locomoção (gasolina, pedágio, seguros)


Um custo que não tem como fugir envolve o transporte e ele não é o mesmo para todos os aventureiros. Para nós equivaleu a 65% do total, porque poupamos ao máximo nos outros itens. Se você dormir em hotel e comer em restaurante, a locomoção pode representar uma parcela menos expressiva de gastos, mas somente porque o seu valor total será maior.


O custo com combustível depende, antes de tudo, da rota. Quem mora em uma cidade do Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina, rodará menos do que quem vive no nordeste, por exemplo. Conforme o Google Maps, sem desvios, da Serra Gaúcha (onde moramos) até o Ushuaia são cerca de 4.500 km. Porém, por ir conhecendo atrações pelo caminho (incluindo a passagem pelo Uruguai) e rodar dentro das cidades onde ficamos, fizemos 2.500 km além disso. O gasto com combustível para uma mesma quilometragem também varia. Não só pela inflação (dentro e fora do Brasil) e pelas variações cambiais que irão interferir no valor cobrado na bomba, mas também pelo desempenho do veículo (usamos gasolina comum e a média de consumo geral foi de 14,6 km/l).

Fazendo estas ponderações, para os 7 mil km rodados de Bento Gonçalves até Ushuaia gastamos R$ 2.167 de combustível (algo como R$ 0,30 por km rodado).


Nos valores de fevereiro a abril de 2019, pagamos por cada litro entre R$ 4 e R$ 4,50 no Brasil; R$ 7,70 no Uruguai (estávamos com um câmbio péssimo, de 1 real = 7,14 pesos) e de R$ 3 a R$ 4,50 na Argentina (há subsídios que reduzem o preço na Patagônia e o câmbio era de 1 real = 9/10 pesos). Você pode conferir os valores atualizados aqui: https://pt.globalpetrolprices.com/


Mas o gasto com carro não se resume a isso. Há também pedágios. A boa notícia é que dentro da Argentina, em direção ao sul, são poucas praças (a maior parte nos arredores de Buenos Aires). Contando com os que pegamos no Rio Grande do Sul e no Uruguai, este gasto somou R$ 196. Além disso, há ainda uma balsa para atravessar o Estreito de Magalhães (para chegar na ilha da Terra do Fogo). Na época nos custou o equivalente a R$ 122 e a travessia dura cerca de meia hora.


Não dá para esquecer de contabilizar ainda a Carta Verde - seguro contra terceiros obrigatório para veículos estrangeiros e que é exigido ainda no Uruguai e no Paraguai. Contratamos por um ano, diretamente na cidade de Chuí (tem várias placas anunciando pontos de venda) e pagamos R$ 434. Você pode contratar por menos tempo, embora o valor não seja proporcionalmente menor (para um mês custará quase metade disso e não 1/12 do que pagamos). Se você tiver um seguro automotivo, dependendo da companhia contratada, pode ser que este gasto não se some ao seu orçamento: algumas seguradoras oferecem o benefício na apólice. Vale informar-se com seu corretor.


Até a chegada em Ushuaia não tivemos grandes contratempos com o carro e os gastos com manutenção incluíram a troca das pilhas do controle do alarme, um farol queimado e uma "chupeta" pois esquecemos o Sandero com as luzes ligadas e ficamos sem bateria. Considerando uma viagem de férias saindo de carro do Brasil, a quilometragem total irá beirar os 10 mil km, sendo recomendada uma revisão antes de pegar a estrada e outra após a volta para casa. Os gastos neste caso dependem do veículo e do estado de conservação.


Casal refletido nas águas da Laguna Esmeralda, em Ushuaia
Laguna Esmeralda - trekking gratuito e acessível

Hospedagem, alimentação e passeios


Estes são custos variáveis que podem fazer toda a diferença no montante final.

Tanto no caminho como em Ushuaia, não pagamos por hospedagem em nenhuma das noites. Ficamos em campings gratuitos (há alguns poucos no caminho que você pode conferir no app iOverlander), dormimos no carro em postos de combustível e também ficamos em casas de pessoas via Couchsurfing (aplicativo/plataforma para hospedar-se com anfitriões locais e cujo foco é o intercâmbio cultural). Desta forma, também poupamos um pouco com as refeições que nos eram oferecidas - embora por outro lado também tivemos gastos para comprar comida para compartilhar. Com alimentação gastamos em média R$ 13/pessoa por dia. Não comemos em restaurante, no máximo compramos algum lanche em posto de combustível e cozinhamos nossa comida sempre que possível (temos uma panela elétrica). Se for uma viagem mais curta, de férias, seu gasto pode ser maior por recorrer a refeições prontas - tanto por estar cansado para cozinhar como por não ter os apetrechos para tal ou por querer se presentear provando mais os sabores locais.


Homem com cordilheiras ao fundo no Parque Nacional Terra do Fogo
Paisagem do Parque Nacional Terra do Fogo

Há quem opte em focar as energias e o orçamento para fazer apenas passeios no destino final. Para economizar, priorizamos sempre opções gratuitas e escolhemos a dedo o que vale pagar. Com entradas de atrações pelo caminho gastamos R$ 80 para duas pessoas. Ficamos 15 dias em Ushuaia e a única atração paga foi o Parque Nacional Terra do Fogo (em abril/19 o ingresso para estrangeiros equivalia a R$ 45 por pessoa). Graças à companhia de um amigo que a estrada nos deu, fizemos muitas trilhas gratuitas e algumas que fogem do circuito turístico (localizadas via Wikiloc - aplicativo em que os usuários compartilham trajetos). Entre os trekkings mais bem sinalizados, gratuitos e fáceis de serem feitos por conta até pelos menos experientes estão a Laguna Esmeralda e o Glaciar Martial.

Demais gastos


Além das categorias já citadas, gastamos ainda outros R$ 700 em itens diversos como remédios, produtos de higiene, cabos (para o celular e para a nossa panela elétrica), uma bota para trekking, uma camiseta térmica e quatro banhos pagos.


Casal na trilha ao Glacial Martial, em Ushuaia
Neve no Glaciar Martial em abril

Melhor época


A recomendação geral é fazer essa aventura nos meses de primavera e verão, por ter mais horas de sol e para evitar contratempos com a neve (rodovias bloqueadas e atrações fechadas). Nós fomos no começo do outono (chegamos lá em 31 de março de 2019) e adoramos: teve frio e neve, mas não em grandes quantidades para causar transtornos, e o colorido das folhas amareladas e avermelhadas deixou a paisagem linda. Não pegamos termômetros tão abaixo de zero (um ou dois graus negativos no máximo) e o nosso carro não sofreu por ser 1.0 - talvez por estarmos acostumados a temperaturas semelhantes onde moramos e pelo modelo já vir de fábrica com um líquido anticongelante no radiador. Temos amigos que foram no inverno - de carro 1.0 também - e chegaram bem, apesar do frio bem mais intenso, necessidade de usar correntes nos pneus e passeios cancelados (especialmente trilhas inabilitadas pela neve).

Faz muito frio?


As condições climáticas na Patagônia são bastante imprevisíveis e pode nevar no verão, por exemplo. Então, independentemente da época do ano, é bom ir com roupas quentinhas e preferencialmente impermeáveis e que protejam do vento. Para o outono, usamos as roupas que temos para o frio da Serra Gaúcha.



casal em frente a placa de Fim do Mundo, Ushuaia
Parada clássica para fotos na área central

Ushuaia é uma cidade cara?


Sim e não. Quem determinará se os gastos serão altos ou baixos é o seu estilo de viajar.

Há restaurantes caros (onde um prato pode sair por R$ 200) e hospedagens de luxo (mais de R$ 1.000/diária), mas também há campings gratuitos, hostels (por volta de R$ 80/diária, a depender do câmbio) e possibilidade de comprar lanches rápidos na rua ou ingredientes no supermercado para preparar a própria comida. O mesmo vale para as atrações turísticas. Há muitas opções gratuitas, mas também pacotes com diferentes experiências agregadas (navegação pelo Canal de Beagle, avistamento de pinguins, sobrevoos de helicóptero) que podem custar de R$ 300 a mais de R$ 1.000/ cada.

Não compramos lembrancinhas para nós nem para a família, mas pelo que conferimos (as lojas estão em sua maioria na Avenida San Martín) os preços dos souvenirs se equivalem aos praticados em outras cidades turísticas. Queríamos comprar alguns acessórios de frio, mas achamos os preços um pouco caros em Ushuaia e deixamos para fazer estas compras em Punta Arenas (a caminho para o Parque Nacional Torres del Paine, onde há uma zona franca).


Condições das estradas


A Argentina, de modo geral, tem boas rodovias. Não vimos muitos buracos na pista e mesmo trechos sem pavimentação (não são muitos, a não ser que decida desviar para conhecer outros atrativos nas proximidades) estavam em boas condições - ao menos quando fomos e comparando com o que encontramos em outros países e até mesmo em algumas regiões do Brasil. A infraestrutura dos postos de combustível é excelente: geralmente tem internet relativamente boa, banheiros, duchas, frentistas amigáveis e lojas de conveniência com preços acessíveis caso queira fazer um lanchinho. É bem provável que você encontre outros aventureiros pernoitando ali - desde mochileiros com suas barracas até modernos motorhomes. Os ventos contrários podem ser um complicador do deslocamento e é recomendado dirigir com cuidado e evitar rodovias à noite por conta de animais na pista (sobretudo guanacos, que se assustam facilmente e saem em disparada).


Corro risco de ficar sem gasolina?


Este foi um dos vários medos que nos meteram antes da viagem. Chegamos até a comprar um galão de 10 litros específico para transporte de combustível e usamos apenas para poupar ao cruzar de um país a outro, já que não estivemos nem perto de correr o risco de ficar sem gasolina. Mas é fato que na Patagônia os postos são mais distantes ente si e eventualmente há filas para abastecer. Portanto, sempre que puder, encha o tanque e se seu veículo tiver pouca autonomia pode compensar ter alguns litros de reserva para evitar apuros.


Tem muita burocracia? Quais documentos preciso?


Brasileiros não necessitam nem de visto e nem de passaporte para ir à Argentina. Quando fomos (época pré-pandemia) também não havia qualquer exigência de vacinas. O RG com menos de 10 anos de emissão é aceito para cruzar a fronteira. As mesmas regras aplicam-se para Chile e Uruguai.


Se for de carro, além da Carta Verde mencionada no início do texto, você não precisará de nenhum outro documento extra caso o veículo esteja em seu nome. Se for financiado ou emprestado será necessário apresentar autorização do proprietário do veículo, registrada em cartório e apostilada. Consideram-se condutores autorizados, sem necessidade de autorização expressa: cônjuge ou familiar do proprietário, até o segundo grau de consanguinidade, desde que o vínculo possa ser comprovado.

A Carteira Nacional de Habilitação (CNH) é aceita e não esqueça de ter consigo todos os documentos do veículo. A Argentina também exige alguns itens adicionais: triângulo de sinalização extra, kit de primeiros-socorros e um cambão de ferro (espécie de cabo para reboque). Compramos um kit com estes acessórios em um hipermercado assim que cruzamos a fronteira (por R$ 52), mas você pode providenciar antes de sair de casa. O extintor de incêndio, que no Brasil é facultativo, por lá é obrigatório. Nunca nos pediram estes itens em abordagens, mas melhor não vacilar - para alguns amigos foi solicitado. Os policiais que nos pararam sempre foram gentis e em nenhum momento sentimos a fama de corruptos que faz muitos viajantes temerem dirigir na terra dos hermanos.


Letreiro escrito Ushuaia
Ushuaia fica 3.000 km ao sul de Buenos Aires

Uma curiosidade que nem todos sabem é que além da balsa para chegar à Terra do Fogo (que é uma ilha), também é necessário passar pelo Chile. Isso porque o arquipélago onde está Ushuaia é dividido entre Chile e Argentina. Após Rio Gallegos cruza-se o Paso Integração Austral (paso é o nome em espanhol dos postos fronteiriços). Pouco mais de 50 km à frente, é preciso pegar uma balsa para cruzar o Estreito de Magalhães, e, após mais 150 km dirigindo em solo chileno, volta-se à Argentina pelo Paso Internacional San Sebastián (a menos de 300 km de Ushuaia). Mesmo sendo alguns poucos quilômetros em solo chileno, será necessário cumprir os trâmites burocráticos na fronteira (tanto na ida como na volta). O Chile é bastante rigoroso neste aspecto, incluindo revista das bagagens como procedimento padrão. Evite ter itens de origem animal e vegetal in natura para não correr o risco de serem confiscados. A entrada e a saída da Argentina costumam ser procedimentos tranquilos.

Placa Ruta 3 - Terra do Fogo, Argentina
"Descer" pela Ruta 3 é a rota mais clássica

Qual é o melhor roteiro?


Há diversas possibilidades para se chegar até Ushuaia. A mais clássica - e a que fizemos - é "descer" pela Ruta 3 (costeando o Atlântico). Ali fica a chamada Patagônia Atlântica, cuja atração principal é a vida selvagem e marinha (dependendo da época do ano é possível avistar pinguins, baleias e lobos-marinhos), com destaque para os arredores de Puerto Madryn (usada de base para conhecer a Península Valdez e Punta Tombo - infelizmente fechadas por conta da chuva na nossa passagem pela região). Também costumam ser usadas como ponto de parada (por oferecerem mais infraestrutura): Bahía Blanca, Comodoro Rivadavia e Rio Gallegos. Há quem também aproveite para incluir uma passagem pela capital Buenos Aires.